Março 18, 2008...7:00 am

PVC na Piauí – Parte 3 (Final)

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Em 15 de julho do ano passado, PVC deu um exemplo cabal de como utiliza informação. Era a final da Copa América, Brasil x Argentina. O time argentino vinha de uma campanha gloriosa, com cinco vitórias em cinco jogos e futebol deslumbrante. Já o Brasil chegara à final depois de amargar uma derrota para o México e um empate sem graça com o Uruguai. A Folha de S. Paulo sentenciava: “A Argentina chega à final da Copa América apontada como favorita ao título, invicta e com vitórias obtidas com goleadas”. O Estadão fazia eco: “Brasil é coadjuvante na decisão contra a Argentina”. Até Dunga aceitava o favoritismo da Argentina. Ao meio-dia, PVC entrou no ar com um palpite diferente. Ele lembra: “Era útil saber o que acontecia nas campanhas dos dois times. O Brasil tinha tomado meio gol por partida desde que Dunga assumira a seleção; já a Argentina de Basile sofria um gol a cada jogo. Dos dezesseis gols marcados pela Argentina na Copa América, onze tinham sido no segundo tempo. Parece estatística de tolo, mas acontece que a Argentina tinha jogado todos os seus jogos à noite. E a final era às três da tarde”. Minutos antes da partida, no ar, ele arriscou: “Nesse sol de 36 graus, talvez não tenha segundo tempo para a Argentina”. Não teve. O time não resistiu à marcação que o Brasil impôs no primeiro tempo e morreu no segundo. Fomos campeões.

Não se trata de infalibilidade (PVC cantou vitória do Brasil contra a França em 2006), mas de usar a melhor informação possível para enfrentar a imponderabilidade de um dos únicos esportes no qual, com freqüência, o time mais fraco vence o mais forte.

PVC mora com a mulher, Adriana, e os filhos, João Pedro (8 anos) e Bruna (de 4), num pequeno apartamento de 90 metros quadrados no bairro do Sumaré. Gosta de contar que a segunda pergunta que fez à mulher foi: “Qual é o seu nome?” A primeira, evidentemente, foi para qual time torcia. Adriana era palmeirense, como ele. Profissionalmente, PVC não se importa em revelar seu time do coração. “Mas também não ofereço a informação, se não for relevante.” E quando é relevante? “Quando me perguntam. Aí, sigo a primeira regra da minha profissão, que é informar. Mas é gozado. Alguém pergunta em quem o Janio de Freitas vota? É uma informação certamente mais relevante do que o time para o qual eu torço. Quando ele vota, está influindo no resultado. Eu não entro em campo.” PVC aprendeu cedo a refrear a paixão. Seu pai é santista. Freqüentemente, o filho assistia aos jogos do Palmeiras na torcida adversária. Era mais prudente analisar do que torcer. Para Adriana, foi um aprendizado maldito. Ver jogo do Palmeiras ao lado do marido é um pesadelo, porque ela é fanática e ele é racional. “Foi pênalti!”, ela urra. “Não foi”, ele sussurra. “Abomino ver futebol com você”, ela conclui.

Adriana é uma das poucas mulheres com quem PVC partilha a paixão pelo futebol. Esse é um mundo de homens. Num fim de tarde de novembro, umas duas centenas deles se acotovelavam no lobby do Swissôtel de Lima, à espera da chegada da Seleção Brasileira. Eram repórteres, comentaristas e fotógrafos à cata da mais insignificante migalha de som ou imagem. Ao chegarem, jogadores e comissão técnica iam passando pelo corredor de cordas e desapareciam num elevador privativo. A cena não dura mais de cinco minutos. Até o mais safo repórter sabe que extrairá no máximo alguma platitude das celebridades, que, quase todas, sequer ouvem as perguntas por causa dos iPods que se tornaram obrigatórios entre elas. PVC não se misturou à guerra de cotovelos. Ali não havia informação a ser garimpada. Decidiu tentar uma entrevista com o goleiro Azca, que em 1957, defendendo a Seleção Peruana no Maracanã, tomou um dos mais famosos gols de falta do futebol brasileiro. Didi aprimorava ali a sua famosa folha-seca, o chute traiçoeiro que, nas palavras de seu criador, fazia a bola “sair zarolha”, descair e entrar.

Enquanto as pessoas se digladiavam no lobby, PVC conseguiu o telefone da casa de Azca. Discou, apresentou-se e propôs a entrevista. Silêncio. Mais tarde, relataria o diálogo.

PVC: Não, não pagamos por entrevista, Azca.

Azca: Mas então não tem nenhum benefício para mim.

PVC: Tem, sim. O benefício é que eu sou um jornalista brasileiro de 38 anos. Nasci doze anos
depois daquela partida e sei da sua história. Li nos livros. E se eu quero contar, é porque alguém deixou um registro.

Azca: Entendo, mas ainda assim não vejo nenhum benefício para mim, desculpe.

PVC: Compreendo as suas razões, mas não desculpo. As relações humanas são assim: na única conversa que tivemos, você me pediu 3 mil soles para contar uma história que pertence ao futebol. É inevitável, essa é a lembrança que terei de você: “Azca foi um jogador que, uma vez, cobrou mil dólares para dar uma entrevista”.

PVC, Mauro Betting, Paulo Calçade, Alex Escobar são os nomes que ocuparão a crônica esportiva nas próximas décadas. É uma passagem de bastão. Se há romance, é o romance dos fatos. Trajano admite que a sua geração, “a geração romântica”, nunca fez esse trabalho de coleta obsessiva de informação. “Eu, o [Fernando] Calazans, os outros — a gente nunca passou a manhã ligando para técnico para saber como estavam os jogadores. É claro que os tempos eram outros, mas ainda assim era muito mais um trabalho de intuição e conhecimento empírico do que de análise de táticas e números. Nós somos os românticos: ‘Bom mesmo era o Dida…’ [jogador do Flamengo da década de 50]. PVC é o contraponto.”

A clivagem entre a velha e a nova geração ficou evidente numa mesa-redonda durante a Copa do Mundo de 2006. A Ucrânia empatara sem gols com a Suíça. Calazans estava enfadado: “O jogo entre Ucrânia e Suíça foi inacreditável. Os timinhos desta Copa estão muito fraquinhos”. Trajano e Kfouri concordaram. PVC só escrevia. Quando chegou sua vez de falar, discordou. “Não acho essa Copa do Mundo ruim, não. Há jogos bons e jogos ruins, como em todas as Copas. A gente não tem que comparar o 0 a 0 de Ucrânia e Suíça em 2006 com a final do Brasil em 1970. A comparação correta é com o 0 a 0 entre Itália e Israel, um jogo horroroso também de 70.” Era o princípio da realidade se opondo ao princípio do prazer. “É claro que todos nós vimos a seleção de Pelé, mas o argumento do PVC era melhor”, admite Kfouri.

É uma velha discussão. Já na década de 70, Paulo Mendes Campos abria uma crônica com a seguinte frase: “O futebol de hoje tem certa monotonia de repartição pública”. PVC sorri. “O futebol não tem culpa por você envelhecer. Se a gente não sabe mais o time de cor, a culpa é nossa.” Para ele, a boa Copa é aquela em que se descobre o futebol, lá pelos 13 anos. “A minha Copa do choro é a de 82, aquele Brasil x Itália. Aquela é a minha final de 50. Sei que 50 foi triste, mas não para mim.”

“Na minha época, a do futebol bonito, os caras corriam 4 quilômetros por partida. Hoje, correm 13. As pessoas precisam saber disso. Hoje tem atleta. Antigamente, era jogador de futebol.” A observação é de Muricy Ramalho, técnico bicampeão brasileiro pelo São Paulo, eleito o melhor do país nos últimos três anos. Muricy é o que PVC chama de uma pessoa “do futebol”. Ser “do futebol” significa ver tudo. “Se estou de carro e passo perto de uma pelada, paro para dar uma olhada”, diz o técnico. “Dizem que moderno é usar computador, fone. Bobagem. Moderno é ver tudo. Eu vejo. Tudo, tudo, tudo. Para falar de futebol comigo, tem que ser muito bom.” Se Muricy pudesse dar um único telefonema para se informar sobre um adversário cujas características desconhecesse, para quem seria? “Depende. Gosto do Ostermann, do Paulo Cesar Vasconcellos, do Alberto Helena, do Tostão. Mas se o time fosse daqui, eu ligaria imediatamente para o PVC. Sabe por quê? Porque o PVC me telefona. Quer saber do clima, do ambiente, de como foi o treino. Se ele faz isso comigo, faz com os outros.”

Vanderlei Luxemburgo foi o único técnico que não quis dar declarações sobre o comentarista. O Santos que dirigia fez partidas medianas no final de 2007. PVC atribuiu a performance ao desinteresse do técnico. “Apático como está, Vanderlei é o ex-melhor técnico do Brasil”, escreveu. Luxemburgo nunca mais retornou ligação. A estocada foi fatal. Falar de caráter é coisa que se tira de letra. Já diagnosticar, quem sabe?, os primeiros sintomas da decadência profissional, isso não se perdoa.

É provável que, daqui para a frente, PVC tenha de arregaçar cada vez mais as mangas. As tais pranchetas a que se referia o técnico Cuca acabaram por atrapalhar a vida de muito treinador. Muricy Ramalho deu um jeito nisso: “Alguns desenhos táticos ele erra. Já errou comigo.” Muricy abre um largo sorriso: “E errou porque eu menti”. Não foi o único. “Olha, vou confessar uma coisa. Às vezes ele me liga, eu penso bem e decido mentir para ele”, conta Cuca. Para não perder jogo, cada vez haverá mais gente mentindo para PVC.

Com exposição cada vez maior, PVC tem consciência das propostas que virão para que deixe a ESPN, onde ganha 18 mil reais como comentarista e chefe de reportagem; completa os rendimentos com 2 mil da rádio Eldorado e 5 mil do jornal Lance. Um diretor da Globo/Sportv se referiu a ele como “um sonho de consumo”. PVC não pensa em sair. Não só porque gosta de onde está, mas por temer que o queiram pelas razões erradas. “Eu não sou um jornalista para a Globo. Se ela convida alguém, é porque essa pessoa está se tornando uma pequena celebridade. Eles querem o personagem PVC, não o jornalista, e o personagem tem um prazo de validade diferente. Já se a Folha me convida, é pelo jornalista.” Admira a Folha, ainda que tenha uma boa frase sobre a cobertura esportiva do jornal: “É o melhor e talvez o único caderno de política de esportes do mundo, mas às vezes fica faltando o caderno de esportes”. O jornal já quis abrir uma conversa, mas PVC preferiu ficar no Lance, no qual colabora há anos. Não foi a única tentação. A Record também tentou contratá-lo, mas PVC não fala do assunto. Dizem que sofreu — o dinheiro era muito —, mas acabou recusando.

Assim, por enquanto, ele poderá ser visto todos os dias na ESPN. Quem quiser saber que o presidente Café Filho foi goleiro e fundador do Alecrim Futebol Clube, que pergunte a outro. Ou espere por um deslize. Volta e meia, sem querer, PVC saca do seu hipocampo uma informação arquivada no escaninho das irrelevâncias. Numa mesa-redonda em outubro, um leitor da cidade de Palhoça mandou uma pergunta por email. Instalou-se a dúvida na mesa. Onde ficaria Palhoça? Dois ou três arriscaram “Santa Catarina”, entre eles PVC, que comentou baixinho, como que para si mesmo: “Tem o Guarani de Palhoça…”

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